Então a garota solta a pergunta (ou exclamação, que seja): “Ah, então você é A MARIANA DO AVM?!” Fiquei meio sem resposta: “É... sou... não sei...”. “Ele te chama de MINHA MARIANA”. É claro que ele ficou sem graça e desmentiu depressa, se justificou; uma justificativa pra uma possível confusão da garota até mais ou menos quase aceitável. Mais ou menos quase. Não me convenceu. Fui embora pensando na terrível situação de ele ainda me considerar “dele”. Me senti uma bruxinha má, fazendo o garoto sofrer só pra me divertir.
Eu já tava meio estranha por causa disso, aí recebi a notícia da morte da professora. Sinceramente, eu não acreditei. Geralmente as pessoas não brincam com notícias desse gênero, mas sabe quando o que você ouve parece não condizer com a realidade? E olha que eu nunca fui próxima a ela, só achava ela simpática, boa professora e bem rígida. Aquelas coisas de admiração misturada com temor. Não passei a notícia adiante; eu queria uma confirmação de uma fonte mais segura do que boca de colega. Até que um professor comentou, durante a aula: “Olha o caso da Malu, por exemplo, ta praticamente esperando a morte.”
Morte cerebral. Então era verdade. Mas ainda me soa tão absurdo, tão estranho, tão distante... Ela deixou um filho pequeno, eu já soube a idade dele; algo na minha cabeça insiste que é nove anos. Se for isso, é a mesma idade com que eu perdi meu pai. Eu lembro direitinho do dia, lembro das expressões das pessoas, lembro do sol, de como estava brilhando(eu reparava nisso, na época, porque minha mãe mandava eu olhar as horas em relógios analógicos, mas eu tinha preguiça. Então, eu memorizei o brilho do sol nas horas dos meus programas de TV favoritos que passavam à tarde.). E lembro da minha mãe de olhos vermelhos em casa no meio da tarde (ela não deveria estar trabalhando?) e das palavras: “Filha, uma pessoa que a gente gosta muito morreu. Seu pai. Ele...” aí veio a causa da morte. É triste; o filho da professora também vai passar por isso. E vai passar pela percepção absurda e cruel do “nunca mais”. Nunca mais, nunca mais. NUNCA MAIS.Eu ainda estou achando tudo meio irreal, meio estranho demais pra estar acontecendo.
“Viver é muito perigoso...”, uma colega exclamou assim que a professora que nos daria aula sobre o Grande Sertão entrou na sala. Ela suspirou, enquanto fechava a porta: “Se é...”
Até então, eu não tinha conseguido “entrar” na tão repetida constatação roseana; a mim soava como uma bela frase filosófica, mas sem referências muito concretas para mim. Depois dos sustos de ontem, não é que eu pude entender um pouquinho?
Viver é muito perigoso...
Escrito em 27/02/09
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