segunda-feira, 8 de março de 2010

"Retorno" ao CEFET - Parte I

Comecei semana passada meu estágio obrigatório desse semestre, segundo módulo do estágio da licenciatura.

O primeiro módulo do estágio eu fiz em uma escola perto de casa; eu já tinha estudado nela, mas o ano que passei entre suas paredes não me marcou muito positiva nem negativamente. Honrosas exceções são um bom amigo que fiz lá (que até mesmo não se afasta de mim totalmente por eu nunca procurá-lo - GRANDE defeito meu, que me dói bastante, mas que não vem ao caso no momento) e a bruxa professora de português (história abaixo citada).

A experiência do estágio em si foi boa para que eu me deparasse com o fato de que eu estava indo para o outro lado - o lado dos professores. Isso quer dizer muita coisa para alguém que sempre teve uma dificuldade imensa para lidar com crescimento e com aquisição de responsabilidades.

Então veio o segundo módulo do estágio. Onde cumprir minha carga horária obrigatória? Em alguma outra pequena escola de bairro? Seria bom, já que vai ser com isso que eu vou lidar na realidade se não pela vida inteira, pelo menos por boa parte dela. Mas, não, eu não quis isso. Eu quis mais. Eu quis algo que me passou pela cabeça no semestre passado e que foi espantado das minhas ideias rapidamente. Eu quis o cefet. Corri atrás, fui aceita, comecei o estágio.

Como eu até já esperava, voltar pro cefet desenterrou muitas coisas que eu tinha conseguido, com muito custo, esconder de mim mesma, mandar lá pra aquele cantinho da cabeça não muito acessado, que não me deixaria sofrer muito. E tudo o que está vindo à tona tá bagunçando muita coisa dentro de mim.

Na tentativa de explicar (até pra mim mesma) o que isso tudo tá significando pra mim, vou falar sobre o que eu era antes do cefet, o que foi ele pra mim, e o que está sendo esse estágio. Vou levantar alguns pontos que venho expondo para mim mesma (principalmente) e para algumas poucas pessoas ao longo dos anos. Outros pontos que levantarei, nunca tive coragem de proferir, e por isso mesmo eu me lembrei dessa vez do meu espaço na internet - meu blogzinho.


Antes...


Informação clichê: nunca quis crescer. Nunca, desde que eu era uma criança pequena que assistia Peter Pan e pedia à minha mãe para que nos mudássemos para lá. Briguei com velas de aniversário, fiz meus parentes me ligarem para o "feliz aniversário" depois das 19:00 (hora em que eu nasci), tentei espremer meus peitos nascentes em um sutiã menor que o meu tamanho, quis me matar ao menstruar pela primeira vez, chorei escondida ao ser chamada de "mocinha" pela minha mãe, recusei-me a aceitar que eu pudesse ser chamada de adolescente, jurei que nunca namoraria, nunca beijaria... O que não faltam, na minha memória, são lembranças de episódios dolorosos e angustiantes que envolviam o meu crescimento. Sempre tive um pavor absurdo do mundo adulto. Meu monstro pessoal, que surpreendia alguns adultos acostumados a ver as crianças querendo crescer depressa.

Sobre minha vivência escolar, duas coisas precisam ser destacadas: meu desempenho escolar altamente satisfatório e minha dificuldade de relacionamento com meus colegas de classe.

Eu era uma boa aluna. Não conversava dentro de sala, fazia praticamente todas as atividades propostas, não colava, tirava boas notas, não matava aula. Bem, exclua 'educação física' dessa descrição e vai ficar mais ou menos claro o que eu era na escola. É óbvio que algumas disciplinas não eram as minhas favoritas, e meu desempenho era um pouco inferior às outras; mas não era nada grave. Eu me sentava sempre nas últimas carteiras, pois tinha um medo absurdo dos professores, e tinha medo de responder coisas erradas. Mas eu respondia as perguntas feitas, quando eu sabia a resposta. Em voz baixa. Cheguei a um ponto de alguns professores fazerem uma pergunta e já olharem para mim, pois sabiam que eu praticamente só moveria os lábios para responder, mas que eu responderia. Eu me achava.

O aspecto dos relacionamentos era a parte ruim. Sempre fui o bode expiatório da turma. Já roubaram minha merenda; me punham apelidos, faziam piadinhas, me davam tiradas. Eu sentia um profundo desprezo por praticamente todos de todas as minhas turmas. Eu acabava arrumando uma ou outra pessoa para relacionar, fazer trabalhos em conjunto. Mas eu já tinha até mesmo me convencido de que eu não precisava de amigos. Minha lógica era mais ou menos essa: as pessoas que me enchem o saco têm amigos. Essas pessoas são chatas. Logo, só pessoas chatas têm amigos (chatos).

Na escola em que estudei da 5ª à 8ª série, consegui fazer umas cinco ou seis amizades ao longo dos quatro anos; eram pessoas que não faziam mais parte da minha turma ou conhecidos de conhecidos que foram se aproximando. Eu dividia o meu lanche com essas pessoas e eu acreditava que elas só estavam perto de mim por esse motivo.

Uma delas, que eu conheci na 6ª série, eu cheguei a considerar amiga. Ela sonhava comigo, quando estávamos na 8ª série, que faríamos prova para o cefet, passaríamos, e deixaríamos, finalmente, de ser "as melhores entre os piores" e passaríamos as ser "as piores entre os melhores". Era bom repetir isso. Denegríamos a escola em que estudávamos e sonhávamos com o nosso objetivo.

Agora, acho que já dá pra juntar tudo. Quando eu tinha quatorze, quinze anos (e estava em crise existencial profundíssima, que me levou do catolicismo ao espiritismo, depois ao "budismo", e por fim ao ateísmo) eu era uma adolescente que brincava de bonecas e tentava se convencer de que ainda era criança. Eu tinha ótimas notas, poucos amigos, vários desafetos, e um sonho incutido em mim pela minha mãe (o cefet) e alimentado por minha amiga (única dessa época).

Fiz a prova do cefet e não passei. Isso significou uma coisa: eu não era tão boa quanto eu acreditava. Eu morava em BH e tinha pavor da ideia de um dia me mudar pra Betim. Me mudei pra Betim. Com isso, me afastei dos meus tão custosos "amigos". Fui para uma escola menor e com menos recursos do que a escola da qual eu tinha acabado de sair. Ou seja, eu cheguei em uma realidade inversa à dos meus sonhos.

Entrei na escola que eu citei acima (onde fiz o primeiro módulo do meu estágio). Eu chorava muito quando voltava para casa. Eu estava me sentindo o pior lixo do universo. Eu precisava que alguém nesse mundo me dissesse que eu era boa. Quando a professora de português pediu para produzirmos um texto, enxerguei a oportunidade de ser reconhecida novamente. Eu estava acostumada a ser carregada no colo por todos os professores, principalmente os de português. Escrevi um texto "gastando" tudo o que eu podia. Me ofereci pra ler. (Quando, nos anos anteriores, eu me ofereceria para ler alguma coisa? Os professores pediam para eu ler.) Mas nesse momento, eu levantei a mão e li meu texto. E a professora me questionou se eu não tinha "copiado de algum livro". É claro que eu me senti pior ainda. Odiei aquela mulher.

O lado bom de passar por essa escola foi encontrar meu amigo, também já citado. Otaku!! Eu não era mais o bode expiatório da classe, e eu até consegui ter um grupinho de umas cinco ou seis pessoas dentro da minha própria turma. De alguns colegas eu não sabia nem o nome, mas pelo menos eu não era mais a agredida. E, apesar de todos os pesares, eu me senti confortável na nova situação. Quando minha mãe falou para eu repetir a prova do cefet, eu não quis. Mas eu obedeci.

Eu e a minha amiga da 6ª série continuávamos a nos falar por telefone. Ela também foi reprovada na prova que nós fizemos. Eu não tinha muita esperança, nem vontade de passar dessa vez. Ela estava se empenhando ao máximo, e eu sabia que se só uma de nós fosse conseguir, seria ela. Sonhamos em estudar juntas de novo, na mesma sala... voltamos ao discurso “das melhores entre os piores e as piores entre os melhores”... Bem, eu passei, ela não, e eu ainda tive que dar a ela a notícia.

Eu ainda era a mesma adolescente que pensava ser criança, com poucos amigos, autoestima baixa. Mas de repente "alguém" muito importante me disse que eu era boa. A lista de aprovados me contou que das quarenta pessoas que tinham conseguido passar na prova para aquela turma específica, eu tinha conseguido o 15º lugar. Eu, afinal de contas, não era tão ruim assim.

Um comentário:

James Rem disse...

Comigo foi + ou - parecido:
1-3: Era o "geninho", xodo das prof., e bem aceito pela sala
4-7: C.D.F odiado pela turma. melhor por todos
8: Um pouco menos cdf, começei a ser re-aceito pela turma, e algun fessores.(dica: passei a bicar conversas e passar cola)
1-2 (no cora): conversava com um grupo de meninas frequentemente e com os profs, alguns alunos me destesta, outros ignoravam, outros me zoavam(e eu levava na brincadeira), outros gostavam de min. Mas mesmo assim eu era o cara esquisito.
CEFET: cê sabe
PUC: Me dou bem com todos, alguns me acham esquisito, alguns me acham gente boa; mesmo assimnão consigo ter aquela relação que eu tinha como eu tinha em EDC.

Mas minina; não se reprima. Você é joia. Só falta um pouco mais de coragem ( a mesma que me falta pra pegar mulher).

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