segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O aborto - parte IX

Eu pensei que eu tinha terminado, mas eu me lembrei de algumas coisas que ainda tenho que dizer:

  •  No dia do aborto em si, enquanto eu pensava que eu não suportaria mais nem um segundo da dor que eu estava sentindo, eu quis largar tudo para lá e correr para o hospital. Meu namorado se ofereceu para me levar, mas eu tive medo que eles me examinassem e vissem os comprimidos que eu inseri. Segundo os sites que eu li, os comprimidos podem levar até 4 dias para se dissolverem. Eu tive muito medo de ir, mas por outro lado eu quis tocar o foda-se, ir e deixar eles injetarem buscopan na minha veia, injetarem plasil, injetarem qualquer coisa que fizesse a dor sumir e o vômito passar. Meu namorado me perguntava se eu queria ir, eu não sabia responder. Por fim acho que ele deu a ideia de esperarmos mais algumas horas, não sei por que motivo, e eu concordei. Quando as horas passaram, eu finalmente dormi. Então nós não chegamos a ir ao hospital.
  •  No dia 20, que foi o dia em que eu acredito ter visto o embrião, eu enviei para a Jane Aus10 uma mensagem explicando porque eu tinha parado de comentar a fic dela. Eu falei com ela a verdade. No dia seguinte, ela me respondeu com uma mensagem que dizia, entre outras coisas, "I think you made the right decision not to have a baby when you are not ready for one.". Foi bom ler aquilo. Como eu já disse, eu não estava arrependida, mas eu estava com medo de eventualmente vir a julgar meu próprio ato horrendo demais e me arrepender. As palavras dela me ajudaram a me acalmar. Eu penso como ela, mas minha mãe coloca a própria experiência de arrependimento como uma coisa tão natural, biológica, que soa como se o arrependimento de se fazer um aborto fosse inerente ao ser humano. Foi reconfortante ouvir de uma humana criada em uma cultura diferente da minha que era ok eu fazer o aborto, que meu ponto de vista não era absurdo.
  • Eu estava conversando com o ex, e ele me deu a opinião dele sobre eu me chamar de vegetariana hipócrita:

    "mas é tão bebê quanto o ovo que eu como é um pintinho
    Por isso não concordo com o argumento de vegetariano hipócrita
    *vegetariana
    Se o embrão tivesse se desenvoldido e tivesse nascido, e depois você comesse, dai sim seria uma vegetariana hipócrita
    torço pra que vc nunca seja uma vegetariana hipócrita.....".

    Essa foi outra opinião que me confortou. O embrião realmente era mais próximo do ovo do que do frango. E não é que eu seja 100% ok com comer ovo, assim como eu não 100% ok com beber leite, mas eu como o ovo sem grandes pesos na consciência. Em questão de eu estar finalizando uma vida, meu aborto, então, ficou do mesmo tamanho do meu ato de comer ovos. Fiquei mais aliviada com esse comentário também.
  • Um ponto positivo dessa história toda foi que eu descobri que eu posso engravidar. Eu já sabia, teoricamente, que eu podia. Mas no fundo eu tinha aquela dúvida.
  • E eu percebi o quão descuidada comigo mesma eu estou. O lance da gravidez foi como um grito de denúncia na minha cara: "Olha onde você chegou!" Eu enxerguei uma consequência que seria negativa não só para mim, mas especialmente para mim. Todo o meu desprezo por mim mesma me levou a uma gravidez indesejada, e nem é como se eu andasse loucamente tarada e tivesse me divertido maravilhosamente no processo de conseguir a gravidez. Muito pelo contrário.
    Mas existe um lado bom nessa história, que é o fato de eu ter percebido o quanto eu estou me negligenciando e eu ter assustado com isso. Me deu uma vontadezinha de mudar, de fazer alguma coisa por mim, de tentar ganhar (ou recuperar, não sei) algum valor para mim mesma.

Nenhum comentário:

Postar um comentário