sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Que existe um certo prazer no autoflagelo é fato. Por exemplo, eu sei que almoçar uma lata de milho não é em nada saudável pois eu não adquiro nenhum nutriente necessário para mim enquanto me encho de sódio. É errado, eu considero errado, mas além se ser mais fácil do que providenciar uma refeição decente, existe uma gratificação emocional por eu saber que estou me prejudicando.
Isso não é novo, na verdade. Houve um tempo em que eu sentia prazer em dormir pouco porque eu sabia que no dia seguinte meus olhos ficariam chios de areia. Ou quando minha mãe ainda estava em casa e eu me mordia longe dos olhos dela com a máxima força que eu conseguia até a dor me fazer parar, e depois ficava admirando as marcas dos meus dentes nas minhas mãos, braços, dedos. Eu não faço a mínima ideia de por que as coisas funcionam assim, mas é fato que elas funcionam.
A parte lamentável da história se refere ao suicídio. Eu estava corajosa e decidida para me enforcar. É fácil fazer pesquisas sobre enforcamento na internet, e corda é uma coisa fácil de se achar à venda. Pesquisas feitas, nó aprendido, plano pronto. Eu já tinha localizado uma tabela relacionando peso e altura do enforcado versus comprimento da corda, o que é importante para evitar que a morte se dê por estrangulamento ou por decapitação. Eu já tinha checado o tempo que leva para a perda da consciência. No pior dos casos, que é o que mais acontece em enforcamentos caseiros, eu perderia a consciência em três minutos. Caso eu fizesse certo, a perda da consciência seria quase instantâea. Eu estava disposta a enfrentar os três minutos.
Mas encarnada por Shinji Ikari eu decidi ir ao médico. Comecei a tomar a sertralina. E aí o equivalente à dor que me impede de arrancar um pedaço da minha própria carne nos dentes apareceu: a possibilidade de sufocar por três minutos me parece insuportável agora. Eu fiquei covarde com a porra do remédio.
Eu consigo o autoflagelo comendo mal. Estou anêmica, tomando suplemento, e não estou comendo direito. Mas não consigo tolerar a ideia de um desconforto maior que pudesse finalizar com tudo. Tentei encarar a ideia de largar o remédio, mas voltei a me preocupar com como minha mãe vai ficar se eu me matar.
Cu.

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