This is what life is. Fear, rage, desire... love. To stop feeling emotions, to stop wanting to feel them, is to feel death. --Sun Bak
Pois é. Quando a Sun falou isso eu senti aquela fincada da faca bem acertada no meio da ferida. Muitas falas de Sense8 me acertaram bem, mas essa é uma das principais, porque ela meio que resume um pouco o que eu penso e sinto.
Começando de trás para frente. Sentir a morte. Isso é bem o que eu sinto. Eu sinto que as pessoas só estão vivas enquanto elas ainda são capazes de levarem a vida de forma mais despreocupada, como crianças e boa parte dos adolescentes. E depois disso, com emprego, contas, prestações, trânsito e etc, elas morrem e viram zumbis que sobrevivem por aí, apesar de que muitas delas não percebem que estão mortas. Eu estou morta e eu sei disso. Eu sinto que estou morta. Eu não tenho objetivos, eu não consigo me imaginar dentro de poucos anos. Eu não sinto vontade de nada. Eu sou morta e vazia. Eu sinto a morte.
Parar de querer sentir as emoções é uma coisa que eu parei há muitos anos. Muitos mesmo. Eu sempre tive meio que a ideia de vilão de desenho animado que sentimentos e emoções enfraquecem a pessoa. Se importar com coisas e pessoas, e principalmente demonstrar que você sente e se importa, são coisas complicadas na minha cabeça. Lembro de uma vez quando eu tinha aproximadamente 10 anos e ouvi minha mãe - bêbada, é claro - chorando literalmente e falando com a Lena que ela achava que eu não gostava dela. Meu pensamento nunca antes confessado foi o de satisfação por estar conseguindo camuflar minhas emoções. Senti um pouco de culpa também, mas o regozijo foi maior.
Agora, entre querer parar de sentir e efetivamente parar vão alguns quilômetros de distância. Acho que parar eu nunca parei, mas sempre me esforcei muito para manter o controle sobre as manifestações do que eu sinto. Algumas coisas eu controlei de verdade, como o tal do amor que é vendido na época do dia dos namorados. Eu aprendi a não ceder a ele, e me sinto muito bem, obrigada, por isso. Eu também aprendi a não esperar coisas boas das pessoas - aprender a incutir uma dose de desesperança nas pessoas é um ótimo antídoto contra a decepção. Fora todas as estratégias como ouvir alguma coisa tão alto no fone de ouvido que a dor faz esquecer o que eu estou sentindo na hora. Ou ainda a vez em que ralei minhas mãos no muro para conseguir controlar meu choro e desespero. Eu tento parar de sentir. Mas a verdade é que sou falha até nisso, visto o tumulto emocional em que eu vivo.
E por fim a primeira parte da fala da Sun. A vida é medo, fúria, desejo, amor. Quando eu era criança, se eu dissesse para minha mãe alguma coisa do tipo "eu não quero menstruar", ou "eu não quero falar na frente da sala de aula", entre várias outras coisas, ela me respondia simplesmente "É a vida". E depois que eu fui crescendo ela passou a acrescentar "A outra opção é pior."
Eu continuo sem querer nada disso. Não gosto do medo, a fúria é frustrante, desejo é decepcionante, amor é uma história da Carochinha, e quando é real, é uma coisa que te deixa vulnerável, de guarda baixa. É tão fácil machucar quem está muito próximo de você. Não acho que a outra opção seja pior. Não quero nada disso. Tanto é que quando eu efetivamente menstruei, eu peguei uma faca e pensei em cortar meus pulsos, o único pensamento na minha cabeça era algo do tipo "Se isso é a vida, se eu me matar as coisas se resolvem."
Essa é a vida, mãe. Nada justa, como afirmou Snape em Chaos, e cheia de medo, fúria, desejo, amor. E mais um tanto de coisas não apontadas pela Sun, mas presentes ainda assim.
Por todos esses motivos essa fala dela foi exatamente a dita faca na ferida. Ou nas feridas, talvez o plural seja mais adequado aqui. Porque em tão poucas palavras foi feito um resumo de basicamente tudo o que eu penso e sinto, e além disso a forma como a frase foi construída jogou uma luz diferente nos mesmos conflitos dos quais eu já reclamei tanto aqui no blog.
"to stop wanting to feel them"
A questão do querer. A fala da Sun não coloca a pessoa como vítima passiva dos caprichos da vida. Ela aponta uma ação da pessoa que a leva a sentir a morte. A questão aqui é a pessoa querer parar de sentir, o que a coloca em posição ativa para o sentimento de morte. Não é simplesmente uma mágica que faz a pessoa parar de sentir. Existe uma responsabilidade embutida aí, segundo a fala da Sun.
E quando eu paro para pensar, não me parece tão absurda assim essa noção de responsabilidade pelo sentimento de morte. Porque é assim que eu vivo a minha vida: negando tudo, me afastando de tudo, tentando me proteger de tudo. E aí eu me sinto vazia e morta e crio mais teorias de que as pessoas são zumbis, por exemplo, e minhas teorias me deixam mais desanimada ainda, com mais sensação de morte ainda, e eu me privo ainda mais de passar pelas coisas da vida, e assim segue o ciclo.
Talvez, então, seja possível eu quebrar esse círculo? Se sou eu mesma quem me arrasta para o sentimento de morte?
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