quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Sobre minha Duília

O Rafael me aborreceu para eu fazer minha inscrição para o ENEM. Eu fiz só pela encheção de saco, sem um único plano sobre o que fazer co0m o resultado. No dia da primeira prova eu quase não fui, e só fui à segunda porque me incomodaria fazer só metade do processo.

Então o efeito do remédio número 3 começou a se fazer mais presente, e no fim do ano passado eu fui sendo tomada de vontades de fazer coisas comigo mesma. Retomei o japonês, me inscrevi para aulas de EAD de faculdade estrangeira; resolvi que é hora de fazer alguma coisa - estou com quase 30 anos e minha vida é completamente vazia. Conseguir me formar se tornou um objetivo para esse ano, assim como conseguir certificações de proficiência em inglês (fiquei um pouco chateada por ter perdido a oportunidade de tentar ir dar aula de português nos EUA, e perdi por não ter nem o diploma nem o TOEFL). Quero também ter alcançado o nível JLPT 5 até o fim do ano -- mesmo que eu não vá até SP para a prova de proficiência.

Em meio a esse boom de animação e de resoluções, as notas do ENEM saíram e logo a inscrição para o Sisu foi aberta. Ainda completamente sem rumo, fui me inscrever em dois cursos que julguei que pudessem ser interessantes para mim de alguma forma: Psicologia e Veterinária.

Um parêntese é necessário aqui. Eu nunca consegui pensar e ter uma vontade clara de ter esta ou aquela profissão. Profissão é coisa de adulto, odeio ser adulta e blábláblá. Mas gostando ou não eu sou adulta, e já trabalho e etc. E depois de me inscrever em Veterinária eu comecei a pensar no assunto pelo lado da profissão em si. Coisa muito diferente do que eu fiz quando cursei Letras. Meu objetivo na época era mudar o mínimo possível a minha rotina, e considerando que sempre gostei de ler e de escrever, o curso de Letras me pareceu o mais apropriado - a ideia de trabalhar em escola não me soava tão mal, mas a verdade é que eu estava muito mais interessada no curso em si do que em pensar na profissão decorrente dele. E pensar em ser uma profissional formada em Medicina Veterinária começou a me interessar: sem escritório, podendo me ocupar mais de bicho do que de gente, ganhando para tentar dar alguma ajuda efetiva aos bichinhos. Interessante. E interessante perceber que eu consegui pensar em uma possibilidade de profissão para mim. Fim do parêntese.

Sobre Veterinária eu já falei. A segunda opção por Psicologia foi mais uma vez pensando no curso, e não na profissão. Curso interessante, mas não gastei tempo refletindo sobre a prática de um psicólogo. A questão é que eu podia escolher duas opções, e deixar uma em branco simplesmente seria irregular demais para mim. Por isso as escolhas.

Olhando as notas de corte caí na real de que eu não tive pontuação nem para um nem para o outro. E aí, sem saber o que escolher, mas já envolvida com a ideia de fazer alguma coisa, e nesse caso alguma coisa seria voltar de alguma forma a estudar, eu não quis deixar de colocar alguma coisa na minha inscrição. E aceitando a sugestão do Rafael - e concordando que eu bem que poderia usar a oportunidade para tentar facilitar a missão de me formar, me inscrevi para Letras no CEFET e na UFMG.

Ver meu nome associado ao CEFET me deixou meio abalada, mas eu ainda estava no espírito "o que der, deu, eu nem sei o que eu quero da minha vida mesmo, então tanto faz".

E aí saiu o resultado, e eu fui aprovada para fazer Letras no CEFET.

Outro parêntese, agora com flashback. No último dia de aula que assisti no CEFET (não foi a última vez que pisei lá, estágio e colação de grau me levaram de volta algumas vezes, mas nessas situações eu já não era mais aluna, então não conta), eu me lembro de andar rumo à portaria com uma sensação terrível de expulsão. Aquele lugar, que significou tantas coisas para mim, estava deixando de ser "minha casa", estava me mandando embora, me empurrando do ninho. Eu saí me sentindo expulsa, sentindo que quando eu passasse pela portaria eu estaria finalizando o meu direito de pertencer àquele lugar. E eu prometi para o CEFET - dentro da minha cabeça, para que nem o Antônio, abraçado comigo, nem Fabíola, andando ao meu lado, pudessem me ouvir - que um dia eu voltaria a pertencer a ele, eu voltaria a ter esse direito. Eu não sei em que eu estava pensando quando pensei em voltar. Mas a sensação de expulsão foi tão imensa, que eu acho que eu simplesmente precisava me consolar de alguma forma.

Alguns anos depois eu fui fazer estágio lá. E eu andei pelos corredores, literalmente passando a mão pelas paredes, me sentindo tão absurdamente feliz por ter podido de alguma forma voltar, por ter ganhado permissão a pertencer de novo CEFET. Eu voltei, eu cumpri minha promessa. É claro que no tempo que eu estive lá eu visitei minhas ex-salas de aula. É claro que me sentei em meu lugar costumeiro e olhei ao meu redor e imaginei de forma tão intensa que eu estava cercada das mesmas pessoas, cada uma em seu lugar, cada uma agindo de forma tão conhecida por mim, que quando eu cortei minha viagem e enxerguei que eu estava em uma sala vazia eu me senti deslocada e errada e meu deus, o que eu estava fazendo ali, e meu deus, aquele era exatamente o lugar em que eu deveria estar e.

Uma coisa muito engraçada é que uma das professoras que eu acompanhei levou para a turma um conto chamado "Viagem aos seios de Duília", da Aníbal Machado, em que um adolescente, ali por volta de 1920, em algum interior do Brasil, foi chamado a um canto pela tal da Duília, que abriu a blusa para ele ver os peitos dela. Só aconteceu isso entre eles. Depois de décadas em que ele passou na cidade grande, depois de aposentado, depois de passar uma vida inteira buscando os seios da Duília nas mulheres que ele pegou ao longo da vida, ele decide voltar para a cidadezinha, porque lá naquele lugar ele tinha sido feliz e um dos ápices foi a Duília. Mas ele viu a cidade mudada, modernizada, eletrizada. Diferente. E quando ele encontrou a Duília, o que ele viu foi uma velhinha cercada de netos e de peitos caídos. E ele entendeu que o que o fez ficar preso ao passado não foi, na verdade, os peitos da Duília, mas sim as lembranças do todo, dele mesmo, da vida dele na época e, claro, da Duília em si. E é claro que eu me vi no conto. O CEFET é minha Duília. Eu voltei para buscar os mesmos seios - minha rotina, meus colegas, meu todo - mas o que eu encontrei foi tudo mudado, e eu percebi que não adiantaria o tempo que eu passasse ali como estagiária. Os peitos caíram e ponto final. Eu não era mais aluna. Eu tinha acesso à sala dos professores e à coordenação de linguagens. Tudo era diferente.

E o estágio acabou. E eu cheguei a acreditar que o Aníbal Machado tinha exorcizado o CEFET de mim, mas quando saí de lá pela última vez como estagiária, eu senti a expulsão de novo, as portas invisíveis se fechando mais uma vez às minhas costas. E não fiz promessas dessa vez. Ao invés disso, eu debati comigo mesma por um tempão sobre se valeria a pena eu tentar voltar ao CEFET de novo ou não. Meu debate não me levou a resposta alguma.

Encerro o flashback e volto ao ponto em que eu fui aprovada para fazer Letras no CEFET. Isso foi ganhar permissão para pertencer mais uma vez. As portas se abriram de novo. É claro que eu tinha que correr e tentar formar por lá ou sei lá. Simplesmente entrar lá porque sim, porque eu fui aceita, porque as portas se abriram, porque eu voltei a poder pertencer. Mas como voltar a entrar lá, sendo que quando eu passo na Amazonas eu não consigo nem olhar para a fachada do CEFET sem sentir vontade de chorar? E já ciente de que não adianta, CEFET é minha Duília, e cada vez que eu entrar lá ela vai ter mais netos e vai estar com os peitos mais caídos.

Eu tive uma recaída de choro e de "pra quê mesmo eu estou aqui tentando formar e aprender japonês e o inferno a quatro sendo que minha vida terminou no dia que eu pisei pela última vez no CEFET". E eu ouvi no Youtube as músicas que tocavam no rádio naquela época, e eu gritei e chorei e a Dodô veio me abraçar <3 e eu sempre paro de chorar quando ela vem porque ela sempre vem quando eu choro. No dia seguinte, que foi ontem, eu estava sentindo um esgotamento que eu não sentia há muitos meses. E ainda sem saber o que fazer com o CEFET.

Um novo plano se formou. (essa cura rápida é mais um milagre dos remédios) Saber da PUC o que eu preciso para formar. Agir com esse objetivo. Fui ontem à PUC para procurar saber, os professores do meu curso só voltam a partir do dia 1º. Abriram as inscrições para o prouni. Fui olhar Letras, Veterinária e Psicologia. Existe um caminhão de interrogações a esse respeito.

Algumas das interrogações são de ordem prática - qual o melhor caminho para resolver o quesito "fazer algo da minha vida antes que eu faça trinta anos"? E algumas são emocionais. Me embrenhar de novo nas Letras pode me inspirar a seguir algum caminho de pós. Fazer Veterinária pode colocar sentido na minha vida. Indo para a PUC, o bus que peguei na frente ao meu trabalho passa em frente ao CEFET. E eu me obriguei a olhar para ele, a notar as diferenças físicas, a processar o fato de que lá agora é uma Universidade tecnológica, e não apenas uma escola técnica. E pensando que talvez estudar lá possa definitivamente exorcizar meus demônios, seguindo aquela linha de pensamento de que você precisa encarar o que te amedronta para resolver o medo. E ao mesmo tempo, andar pela PUC me causou um caminhão de mixed feelings, porque andar por lá me faz lembrar das caminhadas que eu fazia chorando, simplesmente porque eu não estava suportando ficar em sala e eu precisava me mover para não implodir de angústia. E também me faz pensar na sensação de desprezo por aqueles jardins tão bonitos, que merecem meu ódio simplesmente porque a PUC não é o CEFET. E me fez pensar em muita dor, em sensação de solidão, de desespero, de dor, de inadequação. Mas ao mesmo tempo, andar por lá me fez pensar nas conversas com Paula o Julia sobre Harry Potter, nos amassos escondidos no Rafael antes de sermos namorados, na visita à PUC em um sábado para confeccionar cosplay com a Suzana, na Isabella, na Maria Fernanda, nas aulas em si (eu gostava da maior parte das aulas e das matérias). Bittersweet memories. O que me fez pensar no filme Divertidamente e nas memórias de mais de uma cor.

Em resumo, eu concluí que estou de fato com vontade de voltar a estudar. Mesmo que eu me sinta velha para começar uma graduação, mesmo que eu enxergue os anos que eu perdi da minha vida chorando, voltar a estudar pode ser uma coisa boa. Sinto falta de sala de aula - de estar entre alunos. Talvez eu esteja mais uma vez atrás da Duília, achando que voltar a responder chamada vai acalmar meus tumultos. Ainda assim eu estou com vontade de voltar a estudar. Só não sei ainda onde ou o quê (no momento analiso o que posso fazer com o prouni).

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