quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Andromeda Black

Ela merecia uma humana melhor. Não eu. Não uma humana de coração tão partido, com tanta mágoa dos membros da própria espécie. Não uma humana tão cansada da saudade sufocante de outras duas peludas.

Eu faço pela Andromeda o que eu posso. Ração, biscoito canino, petiscos  caninos. Passeios matinais, correria pela casa afora na disputa por algum brinquedo, cafunés. Acho ela uma fofa.

Mas ela cava embaixo do portão quando eu saio, e chora por um tempão. E eu não tenho aquela sensação de "o que vai acontecer comigo quando ela morrer?".

Eu tinha isso com a Talita. Desde sempre, quando ainda vivíamos em bh, antes da Tomoyo. Eu sonhava com ela fugindo, ou morrendo, e acordava tão apavorada.

Ela era meu líder.

A verdade é que nem a Tomoyo alcançou o mesmo lugar que a Talita. A Tomoyo era a companhia canina da Talita. Era o chiclete da Talita. Era a parte canina da matilha da Talita. E eu acho que eu amei ela por ela ser parte do universo da Talita.

A Tomoyo era importante pra mim, óbvio. Mas pensando bem, eu nunca pensei "o que vai acontecer comigo quando a Tomoyo morrer?". Minhas perguntas sempre foram "o que vai acontecer com a Talita quando a Tomoyo morrer?" e "o que vai acontecer comigo quando a Talita morrer?". Era impossível imaginar.

Agora eu sei a resposta para as perguntas. Ou pelo menos posso tentar encontrar as respostas, porque tudo aconteceu. A morte da Tomoyo, meu susto, a falta que eu não pensei que eu sentiria com tanta intensidade, tudo isso me deu a sensação de que não seria tão duro assim. Eu sobrevivi, no fim das contas. Eu nunca tinha me perguntado, mas depois da morte da Tomoyo eu me perguntei como iria ser a vida sem ela. E por um segundo pareceu que seria mais fácil do que parecia.

E aí eu tive que adaptar minha fala para "a cachorra", no singular. E ela não estava nos lugares habituais olhando com ansiedade ou pânico o mundo ao redor dela.

E quinze dias depois eu vi  que aconteceu com a Talita sem a Tomoyo. E o que aconteceu comigo sem a Talita.

Senti alívio com a morte da Talita, e senti culpa por isso, mas o alívio era maior. As coisas não estavam boas para ela, ela finalmente parou de sofrer. Ainda tenho raiva da morte da Tomoyo. E compreendo a da Talita.

Mas eu ainda queria elas. Minhas filhas, que não estão em nenhum lugar da casa. Minha Talita e minha Tomoyo, que deixaram um buraco tão grande dentro de mim.

Em casa, agora, a Andromeda me espera, e faz festa, e me lambe, e me morde, e me acorda, e me abraça. Ela é fofa. Mas ela não é minha filha.

E eu simplesmente morro de culpa, porque eu não sou a humana que ela merecia. Ela merecia um humano de coração mais inteiro, que pudesse pensar "como vai ser minha vida sem ela?". Eu não sou a humana certa para ela. Ela merecia um humano com menos dor e complicação. Outro humano.

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