sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O aborto - parte I


Sábado, dia 11/01/2014, antes de ir para o aniversário do colega da empresa, eu enchi o saco do namorado para comprarmos um teste de gravidez. Eu estava saturada daqueles peitos tão doloridos, daquele meu humor tão destruído, do estômago estranho, da incapacidade de comer frutas em intervalos saudáveis, da incapacidade absoluta de comer maçã. Ele foi comprar com espírito de "que saco, a mulher enlouqueceu, mas vou comprar para ela parar de encher".

Domingo de manhã eu fiz o teste com medo de dar positivo, mas esperando com todas as forças que a segunda linha rosa não aparecesse. E assim que eu enfiei o papelzinho no xixi, as duas linhas rosa apareceram. A segunda estava meio clara, mas as instruções do teste não deixam dúvidas: a intensidade da cor da segunda linha não importa. Se há uma segunda linha, você está grávida. Confesso que passei os cinco minutos requeridos encarando a segunda linha e torcendo para ela se apagar. E pensando: fodeu; estou grávida; vou ter que fazer um aborto; vou buscar aquele site que eu descobri anos atrás. Depois dos cinco minutos eu joguei fora o xixi, limpei a confusão, e saí do banheiro com o papelzinho na mão morrendo de medo de esbarrar com a sogra, o sogro ou o cunhado na cozinha. Cheguei no quarto do namorado sem problemas.

Enfiei o teste na mão dele e joguei o papel de instruções para ele ler enquanto fui pegar teclado e mouse para buscar o tal do site. Meu único pensamento era: o aborto; preciso providenciar o aborto; tudo o que importa é o aborto; aborto o quanto antes. O namorado ainda estava dormindo quando eu fiz ele segurar o papelzinho. Ele não quis ler as instruções. Pôs o papelzinho em algum lugar, tomou o teclado e o mouse de mim e me abraçou. Só aí eu percebi que eu estava tremendo, e aí fez um sentido danado a dificuldade que eu estava tendo para manter o papelzinho alinhado certinho com o xixi.

Eu estava 100% certa do que eu queria fazer. Eu não queria perder um segundo pensando em outra possibilidade. Mas o namorado veio dizer que me apoiaria na minha decisão, fosse qual fosse. Disse que acha que nesses casos a mulher tem 60% de direito de decisão. Falou que me apoiaria se eu quisesse criar. Que pagaria o aborto se eu quisesse abortar. Meu único pensamento era para o aborto. Eu quis interrompê-lo, mas acabei deixando ele falar.

Até então, sempre que eu me imaginei em uma situação dessas, de me descobrir grávida por acidente, eu sempre pensava em desespero, em crises de choro absurdo, em cair no chão chorando sem saber o que fazer. Eu me surpreendi. Em algum momento enquanto o namorado me abraçava eu chorei, mas foi rápido. No fim das contas, acho que minha reação foi mais racional do que eu imaginava.

Enfim, reforcei para ele qual era a minha decisão, e fui para a internet procurar o milagroso site.

O site, Women on waves, é ótimo, fornece todas as informações necessárias para realizar o aborto, mas em algum momento dos últimos anos a equipe deixou de enviar os remédios para o Brasil.

Então começou a minha maratona em busca de um vendedor do Brasil mesmo. Não gostei da cara de nenhum dos sites, e comecei a me desesperar. O tempo. O tempo passa e o desenvolvimento embrionário é muito rápido. Aflita com isso, comecei a pensar em outros riscos da compra: pagar e não receber, receber remédio falso. O namorado me ajudou com a pesquisa, enviamos alguns e-mails e esperamos.

Foi um domingo tenso. Negociações por e-mail, pesquisa sobre o procedimento. Eu, completamente quebrada financeiramente, não poderia pagar nada. Ele bancou e agora eu estou devendo um rim para ele. Quando passou a adrenalina inicial, nós fomos tocar o dia da forma mais normal possível. Enquanto estávamos deitados assistindo alguma coisa, a consciência de que havia um embrião dentro de mim voltou. Temi que o namorado por brincadeira tocasse meu ventre e eu ressignificasse meu problema de resolução cara e transformasse ele em um filho em desenvolvimento. Temi que minha resolução falhasse. Eu observei com muita atenção onde o namorado me tocava, e em momento algum ele fez o que eu temi. Eu me questionei se ele estaria não fazendo deliberadamente ou por acaso.

Meu medo de mudar de ideia cresceu. I had the impulse to touch my belly protectively, but I did not let myself do it.

At some point that day I straddled my boyfriend (clothes on) and I had a thought about the position somehow causing the baby being squeezed. I was surprised with my own concern. Then I tranquilized myself thinking that nature can take care very well of baby's protection. I was already pregnant when I played Just Dance for hours at a friend's place, I was already pregnant when I got drunk at the company's party. So, why would the baby be in danger even if squeezed between my body and its father's?

As soon as I understood that I was concerned about the fetus safety, I get alarmed with myself. I could not change my mind. Well, what I really wanted was the abortion, right? Right. So, no more concerned thoughts, girl. I can't remember what I was talking about with my boyfriend, but somehow the subject changed and I said, joking, that he could punch my belly if it could make the thing just disappear, and he punched me playfully many times. At first I tensed, still thinking the fetus could get hurt. Then I asked myself: why should I care? I was buying drugs to kill it anyway. I was still afraid of changing my mind. I forced myself to relax, and soon I wished that soft punches could really simply get rid of the thing for me. All the thoughts about how Just Dance and the booze didn't hurt the thing make me worried about how difficult is to get rid of a baby. Nature is strong. I wished I could just pick it and throw it away. I told this to my boyfriend. I did not tell him, but I thought, "before I change my mind".
We started calling each other 'mom' and 'dad'. To joke about it made me see I was not so inclined to change my mind as I feared. When he kissed my belly, laughed, and said he needed to do that, I got so relieved I did not change my mind!

At the end of the day I was strongly decided to do the abortion. Eu ainda me assustava com a ideia de que eu estivesse grávida, mas a convicção estava firme de volta.

Na manhã seguinte, segunda-feira, eu repeti o teste a pedido do namorado. Eu tinha certeza que daria positivo, ele queria confirmar. Não criei caso porque seria ele a pagar pelos remédios, então não me custava nada repetir o teste. A segunda linha apareceu instantaneamente, mesmo que eu ainda desejasse que ela se apagasse.

A verdade estava lá, inegável. Na mesma manhã, por motivos psicológicos ou não, meu mal estar de estômago, que já tinha feito eu me decidir a voltar ao Omeprazol, se transformou no fulminante enjoo matinal.

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