Sábado, dia 11/01/2014, antes de ir para o
aniversário do colega da empresa, eu enchi o saco do namorado para comprarmos um teste
de gravidez. Eu estava saturada daqueles peitos tão doloridos, daquele meu
humor tão destruído, do estômago estranho, da incapacidade de comer frutas em
intervalos saudáveis, da incapacidade absoluta de comer maçã. Ele foi comprar
com espírito de "que saco, a mulher enlouqueceu, mas vou comprar para ela
parar de encher".
Domingo de manhã eu fiz o teste com medo de
dar positivo, mas esperando com todas as forças que a segunda linha rosa não
aparecesse. E assim que eu enfiei o papelzinho no xixi, as duas linhas rosa
apareceram. A segunda estava meio clara, mas as instruções do teste não deixam
dúvidas: a intensidade da cor da segunda linha não importa. Se há uma segunda
linha, você está grávida. Confesso que passei os cinco minutos requeridos
encarando a segunda linha e torcendo para ela se apagar. E pensando: fodeu;
estou grávida; vou ter que fazer um aborto; vou buscar aquele site que eu
descobri anos atrás. Depois dos cinco minutos eu joguei fora o xixi, limpei a
confusão, e saí do banheiro com o papelzinho na mão morrendo de medo de
esbarrar com a sogra, o sogro ou o cunhado na cozinha. Cheguei no quarto do namorado sem
problemas.
Enfiei o teste na mão dele e joguei o papel
de instruções para ele ler enquanto fui pegar teclado e mouse para buscar o
tal do site. Meu único pensamento era: o aborto; preciso providenciar o aborto;
tudo o que importa é o aborto; aborto o quanto antes. O namorado ainda estava
dormindo quando eu fiz ele segurar o papelzinho. Ele não quis ler as
instruções. Pôs o papelzinho em algum lugar, tomou o teclado e o mouse de mim e
me abraçou. Só aí eu percebi que eu estava tremendo, e aí fez um sentido danado
a dificuldade que eu estava tendo para manter o papelzinho alinhado certinho
com o xixi.
Eu estava 100% certa do que eu queria
fazer. Eu não queria perder um segundo pensando em outra possibilidade. Mas o
namorado veio dizer que me apoiaria na minha decisão, fosse qual fosse. Disse que
acha que nesses casos a mulher tem 60% de direito de decisão. Falou que me apoiaria
se eu quisesse criar. Que pagaria o aborto se eu quisesse abortar. Meu único
pensamento era para o aborto. Eu quis interrompê-lo, mas acabei deixando
ele falar.
Até então, sempre que eu me imaginei em uma
situação dessas, de me descobrir grávida por acidente, eu sempre pensava em
desespero, em crises de choro absurdo, em cair no chão chorando sem saber o que
fazer. Eu me surpreendi. Em algum momento enquanto o namorado me abraçava eu
chorei, mas foi rápido. No fim das contas, acho que minha reação foi mais
racional do que eu imaginava.
Enfim, reforcei para ele qual era a minha
decisão, e fui para a internet procurar o milagroso site.
O site, Women on waves, é ótimo, fornece
todas as informações necessárias para realizar o aborto, mas em algum momento
dos últimos anos a equipe deixou de enviar os remédios para o Brasil.
Então começou a minha maratona em busca de
um vendedor do Brasil mesmo. Não gostei da cara de nenhum dos sites, e comecei
a me desesperar. O tempo. O tempo passa e o desenvolvimento embrionário é muito
rápido. Aflita com isso, comecei a pensar em outros riscos da compra: pagar e
não receber, receber remédio falso. O namorado me ajudou com a pesquisa, enviamos
alguns e-mails e esperamos.
Foi um domingo tenso. Negociações por e-mail,
pesquisa sobre o procedimento. Eu, completamente quebrada financeiramente, não
poderia pagar nada. Ele bancou e agora eu estou devendo um rim para ele.
Quando passou a adrenalina inicial, nós fomos tocar o dia da forma mais normal
possível. Enquanto estávamos deitados assistindo alguma coisa, a consciência de
que havia um embrião dentro de mim voltou. Temi que o namorado por brincadeira
tocasse meu ventre e eu ressignificasse meu problema de resolução cara e
transformasse ele em um filho em desenvolvimento. Temi que minha resolução
falhasse. Eu observei com muita atenção onde o namorado me tocava, e em momento
algum ele fez o que eu temi. Eu me questionei se ele estaria não fazendo
deliberadamente ou por acaso.
Meu
medo de mudar de ideia cresceu. I had the impulse to touch my belly
protectively, but I did not let myself do it.
At some point that day I straddled my boyfriend (clothes on)
and I had a thought about the position somehow causing the baby being squeezed.
I was surprised with my own concern. Then I tranquilized myself thinking that
nature can take care very well of baby's protection. I was already pregnant
when I played Just Dance for hours at a friend's place, I was already pregnant
when I got drunk at the company's party. So, why would the baby be in danger even if
squeezed between my body and its father's?
As soon as I understood that I was concerned about the
fetus safety, I get alarmed with myself. I could not change my mind. Well, what
I really wanted was the abortion, right? Right. So, no more concerned thoughts, girl. I can't remember what I was talking about with my boyfriend, but somehow the
subject changed and I said, joking, that he could punch my belly if it could
make the thing just disappear, and he punched me playfully many times. At first
I tensed, still thinking the fetus could get hurt. Then I asked myself: why
should I care? I was buying drugs to kill it anyway. I was still afraid of
changing my mind. I forced myself to relax, and soon I wished that soft punches
could really simply get rid of the thing for me. All the thoughts about how
Just Dance and the booze didn't hurt the thing make me worried about how
difficult is to get rid of a baby. Nature is strong. I wished I could just pick
it and throw it away. I told this to my boyfriend. I did not tell him, but I thought,
"before I change my mind".
We started calling each other 'mom' and 'dad'. To joke
about it made me see I was not so inclined to change my mind as I feared. When
he kissed my belly, laughed, and said he needed to do that, I got so relieved I
did not change my mind!
At the end of the day I was strongly
decided to do the abortion. Eu ainda me assustava com a ideia de que eu
estivesse grávida, mas a convicção estava firme de volta.
Na manhã seguinte, segunda-feira, eu repeti
o teste a pedido do namorado. Eu tinha certeza que daria positivo, ele queria
confirmar. Não criei caso porque seria ele a pagar pelos remédios, então não me
custava nada repetir o teste. A segunda linha apareceu instantaneamente, mesmo
que eu ainda desejasse que ela se apagasse.
A verdade estava lá, inegável. Na mesma
manhã, por motivos psicológicos ou não, meu mal estar de estômago, que já tinha
feito eu me decidir a voltar ao Omeprazol, se transformou no fulminante enjoo
matinal.
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