sábado, 25 de janeiro de 2014

O aborto - parte II

A semana começou com a expectativa da chegada do remédio. Eu estava morrendo de medo, mas o vendedor foi atencioso e responsável. Nós nos comunicamos por e-mail, ele respondia rápido.

Eu custei a sentir a ficha caindo de que eu estava grávida. Eu e o meu namorado continuamos a nos chamar de "mamãe" e de "papai" de vez em quando, e na brincadeira era de boa, mas quando eu pensava que realmente tinha uma coisa dentro de mim que se não fosse retirada logo viraria um filho, eu apavorava. Antes de o remédio chegar meu medo era de o cara dar o cano e nós termos que procurar outro vendedor. E o tempo passando, passando, passando, o embrião crescendo. Quando eu escrevi e publiquei o post de terça, 14/01, eu fiquei olhando para a palavra "grávida" e ainda achando absurdo que aquilo fosse associado a mim. Mas era. Inegável. Assustador.

O remédio chegou na quarta, na casa do namorado. Eu senti um alívio sem tamanho. Agora o medo relacionado ao remédio seria só sobre ele ser falso.

Os enjoos matinais me assassinaram ao longo dessa semana. Virei uma grande comedora de torradinhas da Bauducco, elas fazem milagre em estômagos fragilizados por gravidez. Eu continuei deliberadamente evitando tocar meu próprio ventre, com medo de ainda mudar de ideia. Eu passei a ver um número absurdo de grávidas pelas ruas a fora. Continuei incapaz de comer maçã.

Por mais que eu continuasse me impedindo de tocar meu próprio ventre, eu às vezes me pegava me questionando sobre a minha decisão. Uma coisa que eu levei em consideração, uma vez que o susto da descoberta tinha passado, e as providências iniciais para o aborto já tinham sido tomadas, foi o relato da minha mãe sobre o aborto dela. A parte que ela sempre diz que no momento em que ela fez o aborto, aquela pareceu a melhor ideia do mundo, é um resumo do que eu andei sentindo. Mas o que ela também diz é que ela só foi se arrepender anos depois, quando ela me teve. Só aí é que ela foi pensar no bebê que ela matou e que já seria assim, assim e assado quando ela me teve. Minha decisão: pagar para ver. Topei correr o risco. Avisada eu fui, obrigada, mãe.

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