segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O aborto - parte IV

E sobre minhas motivações. Existem várias.

Eu tenho um milhão de questões pra resolver comigo mesma. Eu me odeio, para começo de conversa. Eu vivo para esperar a morte da minha mãe para eu poder me matar. Eu não tenho gosto pela minha vida, acho que eu sou um desperdício de espaço, acho que estou jogando minha vida fora, mas não sei o que fazer com ela. Eu não estou em um momento para ser mãe. Eu não tenho condições financeiras. Eu não tenho condições psicológicas.

Eu não quero a responsabilidade de ter que crescer e ser uma adulta. Eu não quero a responsabilidade pela saúde, educação e bem-estar de outro ser humano. Eu não quero outro ser humano no mundo, mais um chutador de cachorro, comedor de cadáver, batedor de mulher, abusador de criança. O mundo já tem seres humanos demais o destruindo para eu contribuir com mais um.

E a vida é cruel demais. Existem muito mais coisas que deixam a gente triste, cabisbaixo, puto, desmotivado, frustrado, decepcionado, do que coisas boas. Não seria justo determinar que uma pessoa DEVE viver em um mundo que eu mesma temo. Eu ainda acho que minha mãe devia ter feito o segundo aborto, teria sido um ato até caridoso em meu benefício. Visto por esse lado, eu abortar meu filho foi o maior presente que eu poderia dar para ele: eu neguei a ele o sofrimento, a frustração, a raiva de se viver.

E, ainda que nenhuma dessas motivações fosse válida, o simples fato de eu pensar nelas já serve de indicação de que eu não estou apta a ter um filho no momento.

Ainda mais com o dominador do meu namorado. Não. Filhos criam laços eternos. Eu não quero um laço eterno com ele. Minha relação com ele funciona porque a gente se mantém a uma distância segura. Eu definitivamente não quero um laço eterno com ele. Um filho dele não. Jamais.

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