quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O aborto - parte VI

Nomes retirados a pedido do namorado.

Aquilo que eu julguei ser o cordão umbilical tinha textura parecida com linha. Linha grossinha, meio áspera, tipo aquelas linhas engrossadas com cola que vendem para soltar papagaio. É a linha o que mais me faz acreditar que aquilo era o embrião.

Era um ser vivo ali, grudado na minha unha. Um ser vivo que eu matei deliberadamente. Eu li muitas coisas ao longo dos dias desde a descoberta, inclusive sites voltados para quem sofreu um aborto espontâneo. Uma das coisas faladas é que é bom, por mais doloroso que seja, que a mãe veja o feto, ainda que morto. O objetivo é firmar a ideia do encerramento da questão. A gravidez terminou. Essa questão do encerramento veio à minha cabeça enquanto eu analisava aquela bolotinha meio transparente (eu queria que a semi transparência aparecesse nas fotos, mas não deu) com uma linha saindo dela. Aquele era o fim. Lá estava a evidência. Eu agora considero que mesmo que não fosse, mesmo que aquilo fosse só um coágulo bizarro, o fato de eu acreditar que aquilo era o embrião valeu pela consolidação da ideia de encerramento.

Eu mandei mensagens para o pai com as fotos. Antes das fotos ele disse que seria legal colocar em um vidro com álcool. Depois das fotos ele falou para eu lavar as mãos porque estava dando nojo. Eu quis um pouquinho que ele continuasse com a ideia de colocar em um vidro. Eu acho que eu não queria o assunto encerrado, por um lado. Eu confirmei com o pai se ele queria que eu tentasse levar para ele colocar no vidro. Ele disse que não queria. Senti uma tristezinha por ter chegado o momento de jogar fora. Pensei em abrir a torneira em cima da mão, mas aí eu ia me livrar do meu "it" muito rápido. Eu e minhas tentativas de prolongar as coisas. Desgrudei a coisa da minha mão e joguei na beirada do ralo. Tirei a terceira foto e mandei para o pai. Eu ainda meio que queria que ele dissesse "peraê, traz esse treco que eu vou colocar em um pote". Ele não falou. Eu tirei a foto pensando "é a última foto". E depois de enviada a foto, depois de eu dar mais uma olhada, eu abri a torneira.

Eu ainda estou tentando entender porque eu quis estender tanto aquele momento. Eu ainda estou tentando entender o que eu senti. Não foi culpa, não foi arrependimento. Eu não vi ali a perda de um filho. Eu vi uma morte, morte causada por quem não come carne porque não quer se sentir responsável pela morte dos animais. E essa mesma pessoa causou a morte de um membro da própria espécie. Eu quis essa morte. Se ela não tivesse acontecido, eu iria tentar de novo. Eu iria me decepcionar se ela não tivesse acontecido. Mas ainda assim eu não pude deixar de pensar na indignidade que é ter como destino final o ralo da pia de um banheiro. Eu não jogaria a Talita pelo ralo da pia.

Eu ainda acho que minha maior questão é eu ter causado uma morte. Vegetariana hipócrita.

Enfim. Lavei as mãos. Tomei um banho. No meio do banho eu tive um insight escroto, enxuguei as mãos e enviei para meu namorado

"E eu acabei de perceber q realuzei um sonho
Meu filho fez cosplay de Mario"

Piada escrota feita, banho tomado, e a mais do que bem-vinda sensação de alívio tomou conta de mim. Aquele era o fim da dúvida sobre se tinha funcionado ou não. Aquele era o fim do problema em si. Segui minha noite na paz. Assisti um episódio de The L word, um de Orange is the new black, na hora em que o sono bateu, desliguei o notebook e virei para o canto para dormir. E foi só eu fechar os olhos que eu voltei a ver o coágulo bizarro e sua linha. Voltei a sentir a textura da linha entre meus dedos. Eu tinha acreditado que eu estava totalmente de boa com a situação. Liguei de volta o notebook, e sei lá o que que eu fui fazer até o sono me pegar de novo.

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