segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O aborto - parte III

Agora, que eu estou falando de algo que eu considero que foi finalizado, estou com mais preguiça de escrever. Mas vou insistir porque não quero correr o risco de ficar engasgada com nada disso.

Uma coisa que aconteceu no domingo em que eu me descobri grávida, mas que não foi para o primeiro post, foi a conversa que eu e o namorado tivemos, puxada por ele, sobre como seriam as primeiras providências caso decidíssemos ter o bebê.

Primeiro, nós nos casaríamos por causa do plano de saúde dele, para o bebê ter um bom pré-natal. Concordei, lamentando a perda do meu belo estado civil "solteira", de que eu tenho tanto orgulho. Seria a primeira cruel concessão que eu faria pelo bebê.

Eventualmente eu me mudaria para o barracão na casa do namorado, para passarmos pelo menos o final da gravidez e o primeiro ano do catarrento juntos. Agreed, com uma dor ainda maior. Eu só consegui pensar na sogra se intrometendo em cada decisão minha, se intrometendo em como eu deveria cuidar do MEU filho e em como o namorado gosta que as coisas sejam assim e assado. Pensei em toda psoríase que eu desenvolveria, na gastrite, na infelicidade que com certeza eu iria sentir. Cenário perfeito para uma depressão pós-parto. Eu rejeitaria aquela coisa com cara de joelho que teria terminado de destruir a minha vida.

Eu ajudei o namorado a desenhar essa possibilidade de futuro. Ele implicando com a Andromeda, a sogra implicando com a Andromeda. E eu, parte pela Andromeda e parte pelo resto de orgulho que ainda me restasse, embora feridíssimo, comprando todas as brigas e querendo a cachorra dentro de casa, dentro do quarto, como eu estou acostumada, e eu já prevendo o quanto o meu desprezo por mim mesma, pelos seres humanos no geral, e pelas pessoas que viveriam no mesmo lote que eu aumentaria.

O namorado já foi dizendo que ok a cachorra não ficar com a minha mãe, mas ela nunca ficaria dentro de casa. Machista territorialista filho da puta dominador. Eu já avisei que achei lindo a minha tia socar a porta de vidro só pra machucar o bolso do marido dela, meu namorado disse que foi idiota e sem sentido, eu disse que foi útil porque ela conseguiu o que ela queria, que era irritar ele. Eu já me senti armada e pronta para brigar contra a tirania mal disfarçada de bom-senso do namorado.

Pensar em todas essas coisas me deu mais um argumento forte a favor do aborto. Talvez eu tenha um filho um dia. Com meu atual namorado, nunca.

Voltando à semana em que esperamos a chegada do remédio, eu passei a "enxergar" mais mulheres grávidas e bebês, assim como lojas de artigos para bebês. Eu via os barrigões e me sentia aliviada de saber que eu não ficaria daquele jeito. Eu escutava os choros irritantes e também ficava aliviada por não ter aquilo como perspectiva para meu futuro próximo. As lojas de artigos para bebês também passaram a me inspirar antipatia.

Durante aquela semana, eu me senti completamente decidida. O aborto sim, com certeza, por favor. Meu medo de mudar de ideia e de eu de repente decidir ter o bebê se transformou no medo de eu me arrepender no futuro.  Porque uma vez que eu perdi o medo de mudar de ideia, o aborto passou a me parecer a saída perfeita, exatamente como a minha mãe sempre descreveu a experiência dela. O problema é que ela se arrependeu anos depois, e eu passei a me preocupar com isso. Mas assim que o remédio chegou e eu comecei a pesquisar mais sobre como usar, o que esperar da ação do remédio e etc, eu consegui facilmente jogar a preocupação sobre o futuro para o futuro.

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